Espaço interno e ergonomia

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A foto pode parecer piada, mas, sem brincadeiras, é exatamente assim que me sinto dentro da grande maioria dos carros: apertado.

Não me considero um jornalista automotivo. Sou um reles bacharel em Direito, nunca cursei uma faculdade de jornalismo (apesar de ter prestado vestibular para a Casper Líbero no final dos anos 90, influência direta da prima Meire Cavalcante). Mas por uma dessas ironias do destino acabei sendo convidado para escrever para algumas revistas no começo desta década, atividade que ainda faço, por puro prazer.

Apesar disso, sempre tive a oportunidade de testar inúmeros carros: carros antigos, carros novos, carros velhos…  Pelas mãos e pés deste escriba já passou uma infinidade de modelos: carros de luxo, esportivos, carros populares, carros potentes, chochos, caros, baratos, com transmissão manual, transmissão automática, direção hidráulica, direção elétrica e um sem fim de detalhes e baboseiras que pra mim não fazem diferença alguma.

O que realmente faz toda a diferença para mim é o espaço interno. Para quem não teve a oportunidade de me conhecer, sou um pequeno rapaz de 2 metros de altura (oficialmente 1m98, mas no alistamento militar acharam 2m01, então o melhor é arredondar). Como se não bastasse a alta estatura, tenho ainda uma compleição física avantajada (eu tenho “estrutura”, como bem diz a mãe de um amigo). E como se não bastasse ser alto e estruturado eu ainda sou gordo.

Vamos aos fatos: para um “petrolhead”, não existe nada melhor do que guiar um automóvel, seja ele qual for. Um verdadeiro entusiasta consegue se divertir dirigindo qualquer coisa que tenha um volante, uma alavanca e no mínimo dois pedais (um para acelerar e outro para frear). Isso é fato incontestável.

Acontece que é humanamente impossível se divertir sentindo desconforto, seja ele qual for. A minha primeira experiência prática disso ocorreu em 1999, quando eu estava no primeiro ano de engenharia na FEI.

Naquela época, eu ia para a faculdade diariamente guiando uma Toyota Bandeirante 1993 que era meu verdadeiro xodó. Não sei quantos de vocês tiveram a oportunidade de guiar uma Toyota Bandeirante, mas trata-se de um verdadeiro caminhão: volante enorme com 45cm de diâmetro, uma alavanca de marchas um tanto imprecisa (vez ou outra entrava a quinta marcha no lugar da terceira e vice-versa), embreagem pesada e um pedal de freio esponjoso que comandava 4 tambores, um em cada roda. A suspensão era duríssima, molas semi-elípticas NHK, com 12 lâminas no eixo traseiro e 8 no eixo dianteiro.

Os comandos eram de caminhão, o porte era de caminhão, mas eu me sentia em casa dirigindo aquele caminhão, pois ele tinha aquilo que mais me agradava: espaço interno. Nem havia nem mesmo regulagem do encosto do assento, mas eu não sentia a mínima falta, pois para mim, a ergonomia era perfeita (OK, era um tanto complicado namorar dentro daquele caminhão).

Pois bem, na minha classe havia um colega carioca que era proprietário de um Land Rover Defender 110. Nós dois tínhamos o espírito de camaradagem que é próprio dos “jipeiros” e certa vez começamos a comparar os dois veículos.

Neste “comparativo”, tive a oportunidade de guiar o Defender 110 e deixei que o meu colega guiasse a saudosa Bandeirante. Gostei muito do Land Rover: os freios a disco nas 4 rodas eram precisos e não sofriam fading, o acionamento da embreagem era nitidamente mais leve e a suspensão de molas helicoidais era infinitamente mais confortável do que as do Bandeirante.

Entretanto, um pequeno detalhe acabou por “matar” o carro para mim: a absoluta falta de espaço interno. Não havia espaço para as pernas, nem para os braços, o volante era deslocado para a esquerda de tal maneira que conduzir o 4×4 britânico era uma tarefa quase impossível com o vidro do motorista fechado, pois o cotovelo sempre batia no mesmo.

Ao fim do “comparativo”, meu colega citou a absoluta sensação de segurança do Bandeirante: “Felipe, é mesmo um caminhão. A sensação de poder ao volante desse monstro é muito maior do que no Land Rover”. Infelizmente não pude tecer um comentário tão legal a respeito do Defender do amigo e me resumi a dizer que “o carro é legal, mas não é para mim, não tem espaço“.

Não adianta teimar, tem coisas que não vão dar certo...

Não adianta teimar, tem coisas que não vão dar certo...

Outra situação engraçada foi na época do lançamento da Citroen Xsara Picasso. Estava eu despretensiosamente passeando em um shopping em Santo André quando uma mocinha me convidou para conhecer o carro, enaltecendo o espaço interno como uma das maiores virtudes da carroceria monovolume.

Já sabendo o que me aguardava, falei para a mocinha: “Olha, o carro é legal, mas não adianta nada ter todo esse espaço se não tiver espaço suficiente para o motorista…”

A mocinha, achando se tratar de uma desculpa esfarrapada, falou em tom de desafio: “Mas esse carro é espaçoso demais! Vai caber você direitinho…”. Dito e feito, sentei-me ao volante do Citroen monovolume e constatei o que já sabia de antemão: o carro não oferecia espaço suficiente para mim, para surpresa da tal mocinha, que ficou com aquela cara de tacho.

No começo de 2005, um funcionário da GM começou a me falar a respeito do “novo” Vectra. Ele já me adiantava detalhes que a imprensa só foi tomar conhecimento meses depois do lançamento do carro: que o tal Vectra de Vectra não tinha nada, era na verdade um “Astrão”, um projeto comandado por um diretor da GM que era um verdadeiro especialista em corte de custos. Ou seja, o tal do “Novo Vectra” era na verdade o “Velho Astra”, só que requentado!

Uma das coisas que não me esqueci foi quando ele me disse: “Sente-se ao volante do carro e perceba que é um Astra… Não tem o mesmo espaço interno do Vectra “antigo”, muito menos o ótimo espaço interno do Omega brasileiro fabricado até 1998… Quando o carro for lançado preste bem atenção nisso”.

Novamente, dito e feito: foi só o “novo” Vectra aparecer na editora Sisal (que edita as revistas “Oficina Mecânica” e “Hotcar”) que o Rodrigo Leite, um grande amigo, me telefonou: “Bitu, o carro já chegou aqui. Aparece aqui pra gente dar uma volta e aí você dá a sua opinião a respeito dele”.

Corri para a Vila Mariana e de lá fomos até a oficina de preparação de um amigo no Brooklyn. O Rodrigo foi guiando o carro até a oficina e chegando lá fui verificar a posição de dirigir do carro.

Que decepção! Tratava-se de um Vectra completo, Elite 2.4, equipado com teto solar. Assento devidamente regulado, chegou a hora de regular o encosto e… não deu! A minha cabeçona já batia no teto e eu teria de escolher entre dirigir na posição correta com os chifres enterrados no teto ou manter o sótão livre dirigindo na posição errada.

Logo na primeira volta, preguei o pé esquerdo no descanso lateral e notei mesmo que a posição era igualzinha à do Astra. O espaço interno do carro era inferior mesmo, ao ponto de me fazer recordar que até mesmo o velho Monza oferecia um pouco mais de espaço.

Resumo da ópera: de nada vai adiantar ter a oportunidade de curtir qualquer carro se ele não me oferecer um espaço interno digno. E não basta ter espaço: é preciso que a ergonomia seja também perfeita, com todos os comandos em seus devidos lugares, para que a experiência de guiar o carro seja sempre sublime.

Só com bom espaço interno e boa ergonomia é possível encontrar a posição de dirigir ideal.  E a importância disso você pode conferir AQUI, numa coluna antiga escrita pelo amigo Bob Sharp.

9 Comentários

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9 Respostas para “Espaço interno e ergonomia

  1. Hugo Miranda

    Isso é foda mesmo, tenho 1,90 (1,93 os militares acharam auehaueh nao sei como), e ja me sinto um tanto quanto encomodado em muitos carros. Alias, difícil eu me sentir bem em algum. Nesse caso, sou feliz na F250 C.D.

  2. É Phil, não tem jeito mesmo viu, o negócio é voltar a trabalhar na Scania; lá você encontra espaço interno de sobra na cabine de um R 500 Highline.

    Abraços.

  3. Fê, qual é o carro “perfeito”. Existe? Não vale a Toyotona. Só carro.

    Bj.

    • felipebitu

      Carro perfeito é aquele que você gosta ou gostaria de ter. Nenhum carro atende 100% as necessidades do público consumidor, então o carro perfeito é aquele que se adequa a você, cujas qualidades são apreciadas e cujos defeitos podem ser tolerados.

  4. Para ne gente. Eu com 1.84 nao consigo esticar as pernas no new civic. Coisa que é possiel fazer em um Gol Caixa de 1990… Lembram, aquele carro velho com motor antiquado longitudinal que ocupa um mote de espaco interno….

  5. Vocês que são gigantes😀
    eu na minha estatura media de um brasileiro trouxa e fud… 1,74 não tenho muito problema com isso, mas continuo não gostando da maior parte dos carros novos lançados a partir de 2000 (mais ou menos, dependendo do carro) em diante. uma outra oportunidade explico os motivos.

  6. Rodrigo Westphal

    Mas também, pediu pra ser grande e entrou na fila 10x… Não tem que reclamar, sugiro consultar o pessoal da NBA pra saber que carro comprar. Felizmente eu sou baixinho, e meus 1,91m me permitem até mesmo ter um Puma GTE, apenas com um volante mini e andando um pouco corcunda.

    Agora, Bitu, conte pra gente como você faz o punta-taco… eheheheh

  7. Eduardo

    Cara adorei seu texto, achei ele pelo google digitando “espaço interno omega” justamente por eu ter um Omega GLS 1996 que eu adoro, mas chegou a hora de comprar um carrinho mais novo e não faço idéia de qual carro vou comprar por conta desse tal espaço! Tenho 1´98 de altura e acho que sou proporcionalmente igual a você..hahaha
    Vou favoritar seu blog aqui, espero que voce escreva mais a respeito de espaço do motorista….queria MEMSO achar um carro que eu tenha o mesmo conforto que o meu Omegão!

    Abraço!

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